De onde eu vim, aprendi que o sorriso é a manifestação mais genuína da alma, o que está além dos sorrisos cínicos.  Como representantes autênticos das famílias que estão à margem e fora do espectro político, moramos em muitos lugares na periferia, tanto em salvador, quanto em Feira de Santana, até finalmente termos a nossa primeira casa própria no bairro do Feira X, em Feira de Santana.

Lembro que mesmo em meio as adversidades, todos os sorrisos eram largos e verdadeiros. Subíamos e descíamos a ladeira do Alto do Cabrito, em Salvador, carregando latas d’água na cabeça, para encher o tonel, que era o único reservatório de água que tínhamos para passar os dias. Muitos dos moradores do Bela Vista do Lobato, cultivavam suas hortaliças, para que não faltasse o que comer, desde o cheiro  verde para o tempero, até verduras e frutas para a culinária alternativa e saborosa, que alimentava e nutria, muitas vezes nos fazendo lamber os dedos de tão saboroso que era (minha avó dizia que o tempero da comida é a fome),  como se fosse um manjar dos Deuses. Ah que saudade do ensopado de mamão verde com folha de quiabos que minha veia fazia!

Poucas vezes vi a minha mãe chorando pelas adversidades que nos assolava. Ficava sempre observando-a sorridente e alegre, contando as histórias para as clientes que ela atendia fazendo os cabelos de ferro quente. O seu sorriso sempre contagiava as pessoas que chegavam e partiam da pequena sala onde ela atendia suas clientes. O mesmo sorriso que sumia quando ela tomava a frente de confusões familiares, para ajudar às suas amigas a não se permitirem viver relações abusivas, logo depois seu sorriso resplandecia em um abraço, seguindo de uma de suas frases: “Se valoriza mulher”.

E assim aprendi a sorrir por cada conquista ou adversidade superada. Aprendi a ter um sorriso fácil, a relevar comentários infelizes. Aprendi a ter gratidão pelas vitórias, e ser resiliente pelas minhas perdas. Aprendi que um diálogo sem sorriso, é uma porta que fechamos, porque muitas vezes o interlocutor, quer apenas ser acolhido e ganhar um sorriso, para estampar o riso guardado.

Lá de onde eu vim, das comunidades periféricas, onde estão os desempregados, os vendedores de doce e os meninos que aprendem malabares e trabalham no semáforo, os aprendizes de ofícios, como pedreiros, pintores, encanadores, mecânicos, que aprendem com os pais, tios e vizinhos, as diaristas, feirantes, costureiras, doceiras; todos sem exceção, aprendemos a sorrir genuinamente.

Na comunidade a solidariedade é uma virtude primordial, dividir o pouco que temos, meio quilo de farinha, meia dúzia de ovos, o ensopado de acém com osso, é uma regra, não uma exceção. Aprendemos a fazer a vaquinha para ajudar a pagar a luz do vizinho que foi cortada, e se não conseguíssemos deixávamos fazer um “gato” em nossa casa, para que no próximo mês pudéssemos “rachar” a conta de luz.

O tempo passou, mas esta realidade continua. O estigma social e a marginalização das comunidades periféricas, tentam tirar a alegria dos sorrisos, de pessoas que não abrem mão da sua história, da sua ancestralidade, das amizades e famílias alí constituídas. Tentam apagar o brilho dos sorrisos resilientes, dos sorrisos que geram esperanças, tentam passar a ideia que nas comunidades só moram miseráveis, coitados que necessitam apenas de políticas assistencialistas. A quem interessa a falta de sorriso dos periféricos?

Precisamos sorrir, porque o sorriso nos representa, para muitos também é um instrumento de luta, é a forma de dizer: é o meu lugar, posso desbravar o mundo, mas aqui é o meu infinito particular. É importante honrar isso. Não podemos nos permitir ser vistos como uma horda sem futuro, os “invisíveis favelados”.

Convido-os a fazer a seguinte reflexão: que tal deixarmos de pensar nas comunidades como algo que está à parte de nós? Pararmos de pensar de cima para baixo. Deixarmos de ser pseudos intelectuais cosmopolitas, que discutem com seus pares e levam a formula pronta, ditando o que é melhor para a comunidade; provocando assim os sorrisos esquálidos, e o assolamento da miséria, mesmo ainda que nós, periféricos, mesmo em meio aos desafios, continuemos com o sorriso nos lábios? Nossa esperança é o maior legado que nossos ancestrais africanos e indígenas nos deixou.

Vamos sorrir e ocupar os espaços com nosso sorriso largo e verdadeiro, e assim, já estamos conseguindo fazer com que a casa grande, compreenda que a senzala sempre foi mais festiva, produtiva e tem histórias incríveis de superações e conquistas. E eles tem medo disso, de dividir os espaços conosco, porque nós sorrimos verdadeiramente, gargalhamos desmedidamente, alegramos onde estamos inevitavelmente. Sorrimos além dos rótulos, sorrimos sentados com toda a força dos nossos ancestrais africanos e indígenas!

E sorrindo somos felizes!

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