Feira de Santana em 80 e lá vai
Da Feira de 80 e lá vai...
Acolhedora por todos os cantos
Aos quais eu perambulavam
Desbravando córregos do Feira X,
Lagoas já desaparecidas da Pedra do Descanso,
Bicicletas sem freio nas ladeiras do Jardim Acácia
E o medo dos meninos do Pau da Miséria e da Chácara
Que nos assustavam tentando
Sobreviver à violência e as adversidades
Sobreviver à violência e as adversidades
Que só os miseráveis como nós conhecíamos.
Ai que Saudade
Da Feira de Oitenta e lá vai
Onde os esgotos das indústrias do CIS
Corriam pelos córregos do Feira X,
Enquanto a pureza das brincadeiras,
Escondiam caras pálidas, silhuetas esquálidas
Pensamentos transgressores,
Querendo apenas transcender à escassez,
A má sorte, a falta de perspectiva
Querendo apenas transcender à escassez,
A má sorte, a falta de perspectiva
Ainda que amparados por professores
Do Georgina e do General
Que estimulavam as longas caminhas de 16 km por dia
Na esperança que a educação fizesse a diferença
Para os nossos destinos
E como recompensa os mugunzás da merenda
Para os nossos destinos
E como recompensa os mugunzás da merenda
E horas intermináveis de brincadeiras e sonhos
Que alimentavam a fome do corpo e da alma
De alegria, que só nós pobres, tínhamos, sem uma razão maior
De leveza, que era além do corpo e aquém das amarguras
De sorrisos, fruto de pequenas delicadezas diárias entre nós
Ai que Saudade
Da Feira de Oitenta e lá vai
Das serestas do Jota Lopes
Ao som de João Gueto
De dançar com as "coroas"
de Ana da Maniçoba Do vôlei na casa de Jano e Vado
De dançar com as "coroas"
de Ana da Maniçoba Do vôlei na casa de Jano e Vado
Da pequena grande Arena Casa das Crianças
Onde gladiávamos com a bola em riste
por mais uma medalhada
Aderbal, Chiquinho, Ari, Milton
Rogério, Beto, Alexandre, Alcione
Alguns lambanceiros, outros donos da bola
Misturados ao jogo de capoeira com o mestre Rufino
Em tardes de sábado, celebrados entre amigos
Com a velha Tubaína com bolacha "Mata Fome"
Ai que Saudades
De Feira e lá vai
De Lucy e a familia acolhedora
Onde passava para falar
Dos livros, dos sonhos e das paixões
Ai que Saudades
Da Feira de 80 e la vai
O trabalho de menor, não era escravo
A liberdade de vender os ovos
das galinhas de quintal
E poder ir e vir na caloi 10
E reflexão sobre as longas caminhadas
Para tirar poeira dos parafusos da PAF,
das galinhas de quintal
E poder ir e vir na caloi 10
E reflexão sobre as longas caminhadas
Para tirar poeira dos parafusos da PAF,
lavar o banheiro e a faixada imensa
Que além de atacar a rinite, me fazia pensar
Que todos nós merecíamos algo melhor
Meu coração dizia:
Há algo de melhor no mundo para todos nós
Além dos trapos, da fome, dos medos,
Das crenças de muitos pais
Que diziam:
- Acorda pra realidade menino, você é pobre,
e tem aceitar a realidade!
E eu me perguntava:
Qual realidade ? A que eles acreditam, ou a que eu acredito?
- Acorda pra realidade menino, você é pobre,
e tem aceitar a realidade!
E eu me perguntava:
Qual realidade ? A que eles acreditam, ou a que eu acredito?
Porque isso?
Simples... tínhamos a doença "genética" da pobreza!
Simples... tínhamos a doença "genética" da pobreza!
Da alegre miséria que também daríamos para nossos filhos
Mas ainda assim, perambulávamos pela Feira
Brincávamos em todos os lugares da Feira
Amávamos com todas as dificuldades a Feira
Porque eramos pertencentes a este lugar
Onde o sol era escaldante, mas brilhava ameno
Para quem buscava o primeiro emprego
Também imperava a determinação
Nos corações de sonhadores
Ai que saudade
Da Feira de Oitenta e la vai
Ah... Que saudade de mim
E da inocência que dourava o meu peito!
Ai que saudade
Da Feira de Oitenta e la vai
Que está dentro de nós!
Enquanto o frio congela
Até meus neurônios,
Longe do Sol da minha Princesa do Sertão
Ah... Feira, sinto falta de minhas historias
Ah... Feira, sinto falta de minhas historias
Sinto falta de ti!
A Feira de 80 e lá vai, que nunca foi....
A Feira de 80 e lá vai, que nunca foi....
Continua viva em mim.
Em uma das noites mais frias da história de São
Paulo, em 24/07/2013


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